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Sensação de insegurança no Brasil pode radicalizar eleição em 2018

Faixa exibida durante protesto pede "intervenção constitucional" no país
Faixa exibida durante protesto pede "intervenção constitucional" no país - Foto: Vitor Jubini | Arquivo 2015.
 
Um cenário nebuloso, com centenas de políticos investigados ou mencionados em esquemas de corrupção no Brasil, junto à sensação de insegurança das pessoas com a violência, são fatores que poderão influenciar negativamente o cenário político para 2018. Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Datafolha constatou que 69% dos entrevistados acreditam que o Brasil necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, de líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar a sua fé.

Em outra questão, 59% dos entrevistados concordam que a principal missão das polícias é garantir os direitos apenas dos “cidadãos de bem”. Dados como estes podem ajudar a entender porque políticos de extrema direita, como Jair Bolsonaro (PSC), têm aparecido bem em pesquisas para a Presidência da República, o que não acontecia em eleições passadas.

Para Arthur Trindade Maranhão Costa, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (NEVIS/UNB) e membro do FBSP, é no medo que se abre espaço para retóricas punitivistas, sexistas, racistas e xenófobas, o que se constitui no principal combustível dos discursos de ódio que tomaram conta de grande parte da internet e das redes sociais.

“O Bolsonaro usa esse discurso, a bancada da bala no Congresso, a bancada da bala de cada Estado, a bancada da bala do Espírito Santo, onde teve a greve da polícia. Então a pergunta que o cidadão tem que fazer é: Qual a solução para a violência que esses candidatos acham que é? Eles vão apresentar números? Estão se baseando em senso comum ou em preconceito?”, disse o pesquisador em entrevista para o jornal A GAZETA.

ESCALA F
Para constatar tais tendências autoritárias dos brasileiros foi utilizada a metodologia de Adorno ou escala F (de fascismo). Nela, os entrevistados respondem a questionamentos que podem medir o grau de “alinhamento” de suas respostas com a forma de pensar do regime radical implantado em países como Alemanha e Itália na primeira metade do século 20.

Theodor Adorno (1903-1969), criador do método, que é referência mundial até hoje, foi um judeu alemão emigrado para os EUA que buscava compreender como o nazismo teve tantos adeptos em seu país natal. Para ele, períodos de crise como as características que vemos hoje no Brasil, em que as pessoas se sentem inseguras e impotentes, são férteis para o avanço do autoritarismo e de líderes que tentam se converter em messias capazes de reconfortar a população e reduzir o pânico. “Não dá para provar se o brasileiro é fascista, mas o grau de adesão dele a determinadas afirmações é preocupante”, conta o pesquisador Arthur Trindade Maranhão Costa do FBSP.

Assim como na metodologia de Adorno, foram levados em conta na investigação brasileira questões como: adesão a valores tradicionais e convenções sociais; submissão e aceitação incondicional de um líder reconhecido como legítimo; agressividade e predisposição a hostilizar minorias.

Em momentos de grave crise, de crise geral que a gente vive na política, economia, desemprego, segurança, o país fica em busca de um salvador da pátria. De alguém com pulso, força, que não apareceu em investigações, que esteja isento para resolver os problemas socioeconômicos do Brasil. Aí surge uma figura como a do Bolsonaro e a tendência inicial é de apontá-lo como solução. Isso aconteceu com Fernando Collor (o caçador de marajás) e assim por diante. O fato da figura dele se mostrar dessa forma não garante que ele seja bom. É mais desejo do que uma certeza, ainda mais em um sistema político que mesmo dando superpoderes ao presidente não é só ele quem decide. Mas a fala dele tem repercutido, muita gente tem aceitado. Mas não é só no Brasil, nos Estados Unidos ocorreu com o Donald Trump, no Reino Unido com o Brexit, na França, onde a ultra direita quase passou.

ENTENDA A PESQUISA
Abrangência

69%
dos entrevistados concordam que o Brasil necessita, antes de leis ou planos políticos, de “líderes valentes”. A pesquisa teve abrangência nacional, incluindo Regiões Metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes, em todas as regiões do Brasil. As entrevistas foram realizadas em 150 municípios de pequeno, médio e grande porte e foram realizadas entre os dias 03 e 08 de abril de 2017.
 
Método utilizado

Questionários que medem o quanto de fascismo o entrevistado tem, conhecido como Escala F ou método de Adorno. Perguntas indiretas medem o nível de autoritarismo.

Plano em segundo plano

59%
dos entrevistados concordam que a principal missão das polícias é garantir só os direitos dos cidadãos de bem. 69% dos brasileiros adultos concordam que “o país necessita, principalmente, antes de leis ou planos políticos, de alguns líderes valentes, incansáveis e dedicados em quem o povo possa depositar a sua fé”. O percentual sobe para incríveis 85% ao somar os que concordaram em parte com a frase.

Outros dados da pesquisa informam que 60% dos adultos brasileiros acreditam que “a maioria de nossos problemas sociais estaria resolvida se pudéssemos nos livrar das pessoas imorais, dos marginais e dos pervertidos”. E 59% concordam que “A principal missão das polícias é garantir os direitos apenas dos cidadãos de bem”.

BOLSONARO ENCARNA PERSONAGEM DA VEZ
 

Foto: Aílton de Freitas

Defendendo propostas polêmicas e consideradas radicais como o fim do estatuto do desarmamento, colocar o Exército no policiamento e dar uma reviravolta nos direitos humanos, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) tem ganhado apoiadores nas redes sociais e nas ruas, o que tem refletido nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. O deputado apareceu na pesquisa Datafolha de junho na segunda colocação, com 16%.

O Bolsonaro não tem meio termo, não joga para a plateia. O que ele fala, ele vai fazer, se tiver dentro da Constituição
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Carlos Manato, deputado federal
 
No Espírito Santo, que não tem sido diferente, o apoio a Bolsonaro vem também do deputado federal Carlos Manato (SDD), que chama o político carioca de amigo. “O Bolsonaro não tem meio termo, não joga para a plateia, o que ele fala, ele vai fazer, se tiver dentro da Constituição. Quando ele fala que vai por o Exército nas ruas é porque o Exército é pouco utilizado, estamos em guerra civil no Brasil, lugar que mata mais do que qualquer lugar no mundo”, opina Manato.
 
Para o capixaba, a principal bandeira dele será mesmo a segurança. “Ele defende a segurança pela formação militar que tem, mas ele defende também a transparência, o combate ostensivo à corrupção, que bandido bom é bandido preso. E se for preciso armar alguns setores da sociedade, vamos armar“, disse.

"PELA CAUSA"

Defensor, assim como Bolsonaro, do fim do estatuto do desarmamento, o presidente do Solidariedade no Estado promete ser palanque do Carioca no Espírito Santo nas eleições do ano que vem. “Tenho que ser honesto comigo, não tenho cacife para disputar o governo do Estado, não tenho grupo político para isso, mas se for preciso, para dar palanque ao Bolsonaro, estou à disposição, pela causa Bolsonaro posso fazer isso”, afirma Manato.
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