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O misterioso desaparecimento de Marina Silva

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Blog Os Divergentes - Anda cada dia mais difícil concorrer com a realidade, mas o delicioso site de humor Sensacionalista sempre consegue se superar. Nesta sexta-feira (11), publicou um post impagável brincando com a história do rapaz acreano pseudoesquisito que escreveu nas paredes do seu quarto um livro pseudoesquisito, que conseguiu fazer isso de forma pseudoesquisita sem que seus pais percebessem nada, que desapareceu de forma pseudoesquisita por cinco meses, deixou pseudoesquisitas procurações e orientações sobre direitos autorais e voltou agora, de forma pseudoesquisita depois que seu livro pseudoesquisito já figura na lista dos mais vendidos. Segundo o Sensacionalista, o menino voltou, mas resta o mistério do inexplicável desaparecimento de outra menina acreana, Marina Silva.

De fato, é impressionante o sumiço de Marina Silva do debate nacional. Nas duas últimas eleições, Marina apareceu com uma mensagem de novidade. Em 2010, era alguém que tinha saído do PT rompida com a opção do governo Lula de abandonar bandeiras históricas, especialmente na área ambiental. Ela deixara o Ministério do Meio Ambiente após uma trombada justamente com a então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, por não aceitar pressões para conceder licenças ambientais para grandes obras que Dilma, então a “mãe do PAC”, tocava. Saía candidata pelo PV vendendo a ideia de opção de esquerda ao PT. Logo depois, ela deixava o PV e iniciava o caminho para fundar a Rede.

Em 2014, sem conseguir legalizar a Rede a tempo, saiu candidata a vice na chapa de Eduardo Campos, do PSB. Eduardo Campos morreu num acidente aéreo, e Marina, na comoção que se seguiu, chegou mesmo a experimentar por um tempo uma perspectiva real de vitória. Mas embaraçou-se nas suas próprias hesitações e contradições.

O fato, porém, é que nas duas eleições em que participou como candidata, Marina esboçava a ideia do novo. Depois da criação da Rede, buscou-se explicitar isso mais ainda: a Rede seria um modo novo, mais horizontal, de se fazer política. Nos dois casos, a manutenção do PT no poder venceu a ideia do novo. É, no mínimo, curioso que no momento em que o PT não está mais no poder, em que há um sentimento generalizado de desconfiança com relação à velha política e seus personagens, em que parece haver de forma mais amadurecida a chance de eleição de um nome novo, fora da polarização PTXPSDB que domina a política brasileira desde Fernando Henrique Cardoso, aquela que encarnou esse personagem nas últimas eleições esteja totalmente desaparecida.

Talvez a manifestação de Ciro Gomes, agora no PDT, só o leve a vencer a eleição de político mais convencido e arrogante, mas é nessa linha o raciocínio que ele faz ao dizer, em entrevista ao blog Ultrajano: “Esta eleição está para mim”. Ciro imagina que as eleições do ano que vem pontuarão a necessidade do novo, que ele poderia encarnar sem o risco de vitória de um neófito, sem qualquer experiência, um aventureiro como foi Fernando Collor em 1989. Nesses tempos em que nada é entendido se não for literal e estiver devidamente reforçado: essa é a opinião de Ciro Gomes, não a deste que escreve aqui. Ciro seria, nas palavras dele, “o cara que pode restaurar o ideário progressista sem o custo da aventura juvenil”. Na construção do perfil para a disputa do ano que vem, Marina Silva poderia da mesma forma vestir igual figurino. E é engraçado que não faça isso. A não ser que ela tenha uma estratégia que nos surpreenda na manga, nesse caminho totalmente inverso ao de Ciro.

Desde o início dessa longa crise, no início do processo que levou Dilma ao impeachment, Ciro não parou de se posicionar de forma contundente. Em alguns momentos, esforçou-se para revelar mesmo até mais coragem de sair na defesa de Dilma ou de Lula, quando as denúncias chegaram até ele. Ciro claramente buscava colocar-se como Plano B, como alternativa a Lula. Quando Lula começou a sinalizar sua disposição de ir para a eleição, cujas pesquisas vem liderando, Ciro passou a criticá-lo, considerando sua candidatura e o que ela representa como manutenção da atual polarização política um “desserviço”.

Talvez tamanha contundência e exposição acabe por queimar Ciro. Talvez seja disso que Marina busque se resguardar. De qualquer modo, é estranho que alguém que aspire à sucessão no fim desses tempos encarniçados se omita tanto no debate. Se foi o mesmo ET acreano que pegou o rapaz quem também levou Marina, quem sabe não seja a hora de devolvê-la…
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