NYT: Corrupção é como as coisas funcionam no Brasil e nunca foi segredo

O jornal norte-americano The New York Times publicou nesta sexta-feira (15) um editorial onde analisa porquê a luta do Brasil contra a corrupção mergulhou o país em um caos. 
 
O texto aponta que Luiz Inácio Lula da Silva, seis anos após deixar a presidência do Brasil como uma figura amplamente popular, agora enfrenta uma condenação, alguns processos em andamentos e uma forte rejeição de determinado segmento da população que antigamente o adorava.

Times ressalta que Lula já foi um herói nacional cujo apoio foi suficiente para decidir as eleições por duas vezes consecutivas e depois eleger sua sucessora mais duas vezes, mas agora sua candidatura presidencial de 2018 parece incerta. Vale destacar, diz o NYT, que não é apenas este político, muitas vezes chamado carinhosamente Lula, que mudou de alguns anos para cá. O Brasil também mudou ao redor dele.
 
O artigo avalia que sistema político do Brasil tem sido construído há muito tempo em uma corrupção notoriamente penetrante. Nunca foi um segredo que a corrupção é exatamente como as coisas funcionam no país. O ditado “rouba mas faz” – ele rouba, mas ele faz as coisas – tem sido comum há meio século.

“Esse sistema está sendo derrubado por um judiciário que tem força e independência para desafiar até mesmo o presidente e o apoio do povo que já não tolerará mais os velhos caminhos”, diz o NYT. Mas as raízes da corrupção estão tão profundamente arraigadas no Brasil quanto uma árvore antiga em um jardim. Ela se desenvolve de tal forma que tentar arranca-la pode provocar enormes estragos.

O declínio impensável de Lula é apenas uma expressão da turbulência que atinge o Brasil, alerta NYT. “Um número absurdo de figuras políticas estão implicadas, deixando o quinto país mais populoso do mundo com poucos líderes credíveis. As lutas políticas e a desconfiança pública estão subindo rapidamente. Assim como a polarização, os cidadãos cada vez mais culpam o outro lado pelos problemas de seu país”.

Por um lado, tudo isso sugere que os esforços tradios ​​para remover a corrupção, enquanto são dolorosos, estão funcionando. Por outro lado, esses traumas políticos podem trazer consequências não intencionais. Os analistas vêem paralelos preocupantes com a Itália logo antes da ascensão de Silvio Berlusconi ou mesmo a Venezuela antes de Hugo Chávez.

A corrupção política, a economista política Miriam Golden e o economista Ray Fisman escreveram, é uma espécie de equilíbrio. Ele se espalha incorporando cada ator e instituição, que se investiram na manutenção. O desequilíbrio pode desestabilizar todo um esquema e causar danos inimagináveis. 

Saindo de um sistema em decomposição

A corrupção pode atuar como um sistema paralelo que funciona ao lado ou mesmo substitui práticas jurídicas e políticas formais, de acordo com o texto do New York Times. Este sistema é ilegal por um motivo. Desvia fundos públicos para o bolsos de alguns, contorna a lei, cria contravenções. Mas também se torna um meio para que cidadãos e políticos gerenciem o dia a dia. Na Rússia, por exemplo, o sistema de saúde é subfinanciado por um desvio oriundo de subornos, permitindo que os pacientes tenham acesso a tratamentos que de outra forma não existiriam e que os médicos sejam bem pagos.

Conforme passa o tempo, essas práticas se tornam como metástases em todas as instituições, compara. “Você não pode simplesmente mudar o comportamento de algumas pessoas”, disse Fisman. “Você tem que ter uma mudança sistêmica nas crenças de todos na forma como as coisas são feitas. E temos relativamente poucos estudos de casos recentes sobre histórias de sucesso de como isso aconteceu “.

A campanha anticorrupção do Brasil é mais do que simplesmente remover algumas maçãs podres, porque são tantos os implicados, que a classe política do país está acabando. Michel Temer, o atual presidente, também foi acusado de corrupção. Os políticos na fila para sucedê-lo se ele sofrer impeachment também estão enredados na mesma investigação, assim como muitos legisladores. Eduardo Cunha, o poderoso antigo presidente da câmara foi condenado a 15 anos de prisão em março.

Esse tipo de revisão rápida pode enfraquecer o próprio sistema político. Na Itália, as acusações de “mãos limpas” na década de 1990 ajudaram a reduzir a corrupção que se espalhou pela política do país, mas também enfraqueceu os partidos e as instituições existentes até o colapso. Berlusconi, um estranho populista, explorou essa abertura em sua ascensão ao poder. Mas, na prática, substituiu um sistema de patrocínio corrupto por outro, estancando o progresso promissor da Itália. “Muitas vezes as pessoas discutiram a possibilidade de que o Brasil poderia seguir a direção da Itália”, disse Amy Erica Smith, professora da Universidade Estadual de Iowa que estuda o Brasil. Os líderes restantes do Brasil são impopulares e o governo está à deriva, ressalta NYT.

A indignação pública em escândalos individuais é uma bola de neve. Uma pesquisa recente da Datafolha, encontrou uma grande insatisfação com o estado do país. Isso cria precisamente o tipo de abertura apreendida por populistas anti-establishment como Berlusconi e o presidente Chávez da Venezuela, que ganharam força em meio a ataques contra a corrupção. “Eu realmente me preocupo em limpar todo o sistema, porque vai desmoronar”, disse Ken Roberts, cientista político da Cornell. “Eu realmente tenho medo de quem será o Berlusconi brasileiro”.

Uma Sociedade Polarizada

A queda do status político de Lula Silva aponta para outro problema crescente. A sociedade brasileira está polarizando de maneiras que, em outros países, se mostraram desestabilizadoras. Ele permanece popular entre seus apoiantes, mas é oposto por outros. De acordo com a Datafolha, 30% dos entrevistados disseram que votariam nele ao invés dos outros quatro prováveis ​​candidatos nas eleições do próximo ano. Embora esta seja uma participação maior do que para qualquer outro candidato provável, a pesquisa também encontrou uma desaprovação de 46 por cento para Lula. Entre os eleitores que se identificam com as alas direitas, 57% disseram que não apoiariam Lula sob nenhuma circunstância.

“Este alto nível de polarização nos últimos dois anos no Brasil é mais típico da Venezuela, da Argentina, mas nós não estamos acostumados a isso”, disse Mauricio Santoro, cientista político da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, acrescentando: “Todo mundo está um pouco perdido”.

Virando-se contra o sistema 

Na Venezuela, a polarização atingiu tal nível que o Judiciário acusou Chávez de usar as eleições como negócios nefastos e subverter a vontade popular. 

A política do Brasil não atingiu esses extremos, mas eles estão avançando nessa direção, observa NYT. A pesquisa sugere que quando as pessoas se desconfiam profundamente das instituições e, particularmente, quando vêem seus adversários partidários como ameaças perigosas, eles se tornam mais dispostos a apoiar os autócratas como líderes. Isso geralmente não significa apoio para o autoritarismo aberto. Em vez disso, em tais situações, os eleitores são atraídos por conservadores que prometem reprimir adversários políticos e instituições que são vistas como ameaçadoras. 

Milão Svolik, um cientista político de Yale, concluiu em um documento recente que a polarização severa foi um dos principais motivos para a democracia da Venezuela entrar em colapso sob o comando de Chávez.

A crescente proeminência de Jair Bolsonaro, um congressista ultranacionalista que defende o retorno da ditadura militar no Brasil, sugere a crescente insatisfação, comenta Times. A pesquisa da Datafolha descobriu que 15 por cento apoiaria Bolsonaro para presidente. Enquanto Bolsonaro está longe de ser um provável vencedor, o aumento de sua proeminência choca muitos brasileiros, finaliza. “O Brasil está agora tão polarizado quanto os EUA”, disse Carlos Melo, cientista político brasileiro, acrescentando: “Se Lula ficar fora, abrirá, sem dúvida, espaço para um líder externo e muito emocional, um pouco como o presidente dos Estados Unidos Trunfo.

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