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O que o “apê” de Lula tem a ver com o “panetone” de Arruda?


Metrópoles - Suposto uso de notas fiscais falsas para comprovar o aluguel de um apartamento em São Bernardo do Campo (SP) pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) guarda semelhanças com um escândalo do Distrito Federal que resultou na condenação do ex-governador José Roberto Arruda (PR). Há oito anos, o ex-gestor do DF usou recibos suspeitos a fim de justificar a aquisição de bolos natalinos, no episódio que ficou conhecido como “Farra dos Panetones”. 

Os documentos renderam a ele a única condenação criminal, até o momento, resultante da Operação Caixa de Pandora, deflagrada em 2009. Dois laudos do Instituto Nacional de Criminalística (INC), obtidos pelo Metrópoles, revelam detalhes sobre o trabalho dos peritos para chegar à conclusão de que quatro notas fiscais foram forjadas por Arruda. A partir de documentos presentes na denúncia do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), que atua no combate à corrupção, os peritos conseguiram apontar indícios de que os recibos apresentados à Justiça foram assinados no mesmo dia e impressos na mesma máquina.

Os documentos, segundo Arruda relatou no processo, seriam referentes a doações de Durval Barbosa para comprar panetones a pessoas carentes. A ação social, na verdade, tinha o propósito de encobrir a distribuição de dinheiro a aliados em troca de apoio político. Embora Arruda tenha apresentado os recibos com as datas de doações dos anos de 2004, 2005, 2006 e 2007, os profissionais do INC encontraram irregularidades nos documentos originais.

Existiam sulcos ou sulcagens com formatos similares aos das assinaturas/rubricas constantes nesses materiais. Essas escritas latentes são normalmente originadas quando a pessoa escreve ou assina um documento que se encontra sobre outra folha de papel
". Dependendo da pressão que a pessoa exerce sobre a caneta quando ela está escrevendo ou assinando, essa marca pode aparecer na folha colocada imediatamente abaixo, ou mesmo nas seguintes, segundo explicaram os peritos.

Impressora da residência oficial
 
“Constatou-se que, no documento referente a 2006, havia imagens latentes dos anos de 2004 e 2005. No documento referente a 2007, apareciam marcas dos anos 2004, 2005 e 2006. Ou seja: os documentos foram assinados juntos, estando um sobre o outro, nesta ordem: 2004, 2005, 2006 e 2007”, acrescenta o laudo do INC.
Os peritos ainda constataram que a impressão dos recibos em papel A4 foi feita na mesma impressora Workcentre 7328 Xerox, da Residência Oficial de Águas Claras. Tanto a impressão quanto as assinaturas teriam ocorrido no mesmo dia: 28 de outubro de 2009.
 
Diante de provas e dos apontamentos realizados pelo Gaeco, o juiz Paulo Carmona, da 7ª Vara Criminal de Brasília, condenou José Roberto Arruda a 3 anos, 10 meses e 20 dias de prisão, em maio deste ano. O magistrado considerou que o então governador do Distrito Federal “inseriu declarações falsas ou diversas das que deveria fazer, consubstanciadas nas seguintes afirmações, com as variações relativas aos valores e aos anos especificados”.

Confira os laudos:


Negociações
 
A íntegra da sentença do juiz Paulo Carmona, assinada em 5 de maio de 2017, aponta ainda detalhes das negociações no dia em que as notas fiscais foram assinadas. Trecho de depoimento do delator do esquema investigado pela Caixa de Pandora, Durval Barbosa, mostra que nomes importantes da política atual, como o deputado Alberto Fraga (DEM), estavam presentes no momento em que os recibos foram impressos e firmados.

Segundo Durval Barbosa, a reunião realizada na Residência Oficial de Águas Claras em 28 de outubro de 2009 para a assinatura dos recibos das doações falsas contou com a presença de José Roberto Arruda; do chefe de gabinete dele à época, Fábio Simão; do então secretário e hoje deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF); e de Rodrigo Arantes, sobrinho de Arruda e corréu no processo.

Barbosa contou que Arantes teria saído para buscar folhas de papel A4, a pedido de Arruda e denominadas por ele como “recibos”. Foram usadas duas canetas azuis para as assinaturas dos documentos. Durval teria esclarecido que se trataria de uma “farsa montada pelo governador”. Ele declarou ter se sentido coagido a assinar as notas na presença de todos os citados. Os recibos originais, os laudos periciais, as análises e o vídeo da entrega do dinheiro pelo delator, Durval Barbosa, além de documentos como a prestação das contas da campanha de Arruda em 2006 foram suficientes para comprovar o crime, de acordo com o juiz Paulo Carmona. “Verifica-se que a autoria e a materialidade delituosas restam comprovadas, impondo-se o decreto condenatório”, destacou o magistrado. Assim, ele sentenciou o réu por incorrer quatro vezes nos crimes previstos nos artigos 299 (falsidade ideológica) e 71 (repetição do mesmo delito).
 
Lula e as notas de aluguel
 
No caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dos 26 recibos entregues ao juiz Sérgio Moro referentes a cinco anos de aluguel de um apartamento vizinho ao que morava na Grande São Paulo, dois têm datas que não existem no calendário: 31 de junho de 2014 e 31 de novembro de 2015.
 

Os documentos estão em nome da ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, que morreu em fevereiro, e tentam contrapor a acusação, no âmbito da Operação Lava Jato, de que o ex-presidente da República teria comprado o imóvel com dinheiro da Odebrecht. A suspeita dos investigadores do Ministério Público Federal (MPF) é que os recibos tenham sido impressos na mesma máquina.

De acordo com denúncia do MPF apresentada em dezembro de 2016, o aluguel do apartamento não teria sido pago por anos, o que poderia representar um suposto favorecimento ao ex-presidente pela empreiteira. O imóvel foi comprado em 2010 pelo engenheiro Glaucos da Costamarques, amigo em comum de Lula e do pecuarista José Carlos Bumlai, réu na Operação Lava Jato.

Assim como no caso de Arruda, quem faz a verificação das notas entregues pela defesa de Lula é o Instituto Nacional de Criminalística. Os peritos, que têm expertise na análise desse tipo de documento, investigam se a papelada foi assinada no mesmo dia e se saiu do mesmo aparelho de impressão.

O Metrópoles entrou em contato com o advogado de José Roberto Arruda, mas ele não respondeu até a última atualização desta reportagem. A assessoria do Instituto Lula não se pronunciou. Alberto Fraga não atendeu o celular. A defesa dos demais citados não foi localizada para comentar o assunto.
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